Quando a equipa B foi convidada para participar num estágio de três dias do Liverpool em Marbella, Renato Paiva, treinador da formação secundária dos encarnados, estaria longe de imaginar que os seus jogadores iriam ajudar na preparação dos reds para a conquista da Liga dos Campeões.

O convite foi endereçado a Pedro Marques, Diretor Técnico do Futebol de Formação do Benfica, com a garantia de que os encarnados podiam levar a comitiva que quisessem e de que teriam um avião fretado para a deslocação a Espanha.

"O Liverpool sentiu a necessidade, ao fim de três semanas sem competição, de fazer um jogo particular. Foi fácil: não poderiam ser equipas inglesas por causa das fugas de informação, não poderiam ser equipas espanholas porque Pochettino esteve em Espanha muitos anos, não poderiam ser equipas francesas porque Lloris é o guarda-redes da seleção gaulesa. Sobrou Portugal. E aí teve muito peso - e tenho de dizê-lo porque nos foi dito por Jurgen Klopp e Pepijn Lijnders - a qualidade dos jogadores jovens do Benfica. Olharam para a equipa B, na altura em terceiro na Liga 2, sabiam da mudança de Florentino e Ferro para a equipa principal. Não andam distraídos e pude constatá-lo nas reuniões. Viram a equipa a jogar e encontraram semelhanças com o Tottenham, daí veio a escolha", disse Renato Paiva, em entrevista ao jornal A Bola.

"A equipa B devia deslocar-se para Marbella três dias e reunir-se com o staff técnico do Liverpool, que estava perfeitamente identificado com aquilo que era o Benfica B em termos técnico-tácticos, com aquilo que era o Tottenham. E encontrou pontos de ligação entre as duas equipas. E foi pedido ao Benfica B que adotasse alguns comportamentos. Dois defensivos, dois ofensivos, além dos comportamentos nos esquemas táticos, nas bolas paradas, similares às que o Tottenham faz e poderia fazer na final da Champions. Que fôssemos um bocadinho mais Tottenham e menos Benfica B", prosseguiu.

"Replicámos a papel químico as saídas em construção do Tottenham, o defender em 4x2x3x1 com o ponta de lança a cortar entre os centrais e o n.º 10 a tentar obstruir e abafar o 6 do Liverpool. E depois, em processo ofensivo, saídas a três [circulação de bola entre os centrais e o guarda-redes]. Os jogadores tinham a consciência de que deviam fazer de Kane e companhia. Preparei palestra e dissequei quatro momentos, os dois defensivos e os dois ofensivos, com os nomes deles e com dos nomes dos jogadores do Tottenham por baixo. Tudo preparado em teoria no hotel e depois replicado em treino. De Eriksen fez um bocadinho o Vinícius, metia-se mais para dentro, Bernardo foi mais Dele Alli, José Gomes", acrescentou.

O treinador do Benfica B falou ainda dos cuidados que os jogadores deviam ter com os adversários e da confidencialidade que os 'reds' lhe pediram quanto à estratégia para o jogo com o Tottenham.

"Passámos ideia aos jogadores naquela base de 'não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti'. O Liverpool pediu-nos agressividade e intensidade, pediu-nos que fôssemos nós, mas pedimos obviamente aos jogadores que a agressividade não passasse a violência porque uma lesão ali põe em causa o jogo de uma época, de uma vida, até. Os jogadores não deixaram de ser eles próprios, não deixaram de ser muito competitivos", sublinhou, antes de acrescentar.

"O Liverpool alinhou com o onze da final e pediram-nos que não disséssemos rigorosamente nada até ao dia da final. Fomos bastante elogiados, na manhã do jogo ainda nada se sabia. E o assessor do Liverpool disse-nos: 'quero agradecer o vosso profissionalismo porque sabemos que em Portugal quando alguém do Benfica espirra há logo notícia. Estão aqui desde quinta-feira e não há uma única notícia'. Antes de viajarmos, tivemos de informar os jogadores que teriam de adiar as férias uma semana, sem lhes poder dizer do que se tratava, tudo tratado com o máximo secretismo. Acabámos por estar nos meandros da preparação estratégica de uma final da Champions, íamos saber aquilo que o Liverpool queria fazer em função do que pensava que o Tottenham iria fazer. Estávamos por dentro dos segredos e das intenções do Liverpool. Só dissemos aos jogadores que ia ser uma experiência inesquecível, gerou azia em alguns, já tinham viagens marcadas, mas depois aperceberam-se da dimensão daquilo que iam fazer. Poderá ser irrepetível. Foram responsáveis e conscientes."

O treinador do Benfica falou ainda de um episódio memorável do jogo com os 'reds' em que conseguiram jogar em posse de bola durante 75 segundos.

"Tivemos uma jogada de um minuto e 15 segundos em que o Liverpool não tocou na bola, foi momento fantástico da nossa parte, já com mais confiança no treino e no jogo. Fomos à direita, fomos à esquerda, ao corredor central, circulámos por trás e durante um minuto e 15 segundos estivemos em posse de bola, contra aquele Liverpool cheio de vedetas e a pressionar-nos. Dissemos: 'Divirtam-se, aproveitem, não há pontos, não há pressão. E quanto estiverem na fase de construção e olharem para a frente verão Salah, Mané, Firmino... aproveitem'. Resposta de qualidade e ao encontro daquilo que eles nos pediram", salientou, antes de rejeitar qualquer mérito na vitória do Liverpool.

"Não temos intervenção alguma no sucesso do Liverpool, mas sentimos que fizemos parte de qualquer coisa, sentimo-nos orgulhosos pelo convite, por fazer parte do ambiente. Os jogadores estavam... nos primeiros cinco minutos não conseguimos fazer dois passes seguidos, via as pernas dos jogadores a tremer, foram-se libertando e começaram a divertir-se. E Klopp até disse que dentro de 3 anos alguns podiam estar a jogar contra o Liverpool na Champions", concluiu.

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