"Quando o comboio passa, tens de o apanhar porque pode não voltar a passar. Tive a oportunidade de ir para o Manchester United [...], mas, olhando para trás agora, se calhar devia ter ficado um ano no Vitória de Guimarães porque sabia que ia rebentar nesse ano, faria uma boa época e ia para o Manchester United com mais maturidade, mais experiência de Primeira Liga e de futebol português. Mas não me deram tempo".

Tempo. Oportunidades. Terão sido estas algumas das causas para que Tiago Manuel Dias Correia, mais conhecido por Bebé, não tivesse singrado por onde passou. E com Bebé, tudo aconteceu muito rápido, muito cedo. Talvez demasiado rápido. O SAPO Desporto foi até Madrid conhecer a história deste irreverente jogador português, que em 10 anos passou por dez clubes.

 

Aos 18 anos, dava nas vistas no Estrela da Amadora, que disputava a extinta Segunda Divisão B de Portugal, em 2008/2009 e 2009/2010. Ainda com idade júnior, jogava nos seniores e era dos poucos que recebia ordenado. No ano seguinte, o Vitória de Guimarães, após muita insistência, conseguiu resgatar o miúdo da Casa do Gaiato de Loures ao Estrela. Com um futebol de rua, diferente dos demais, Bebé começou a dar nas vistas nos jogos de pré-época dos minhotos na temporada 2010/2011, despertando a curiosidade de muitos olheiros, depois de marcar cinco golos.

O Manchester United, que nos últimos anos tinha recrutado Cristiano Ronaldo, Nani e Anderson, ainda jovens, em Portugal, não perdeu tempo. Levou-o por 8,8 milhões de euros, num negócio intermediado por Jorge Mendes, o agente de Bebé. Para o Vitória de Guimarães e para Bebé, era como se lhes tivessem saído o Euro milhões. Mas o miúdo de 20 anos precisava de tempo para que alguém domasse aquele futebol de rua, aquela anarquia em forma de velocidade, rapidez, drible, remate e cruzamentos. Aos 27 anos, tenta ganhar forma e confiança na Segunda Liga Espanhola ao serviço do Rayo Vallecano, para, no próximo ano, 'explodir no Eibar', clube que detém o seu passe. Aos 27 anos, continua a sonhar com o topo do futebol mundial.

O que como hoje, o que a minha família come, o que eu visto, o que tenho, é tudo devido a Jorge Mendes

 

Até hoje, a sua transferência para o Manchester United continua a ser um mistério em Inglaterra. Alex Ferguson, na altura treinador dos 'red devils', confessou, anos depois que contratou o jogador sem nunca o ter visto ao vivo. Era a primeira vez que o fazia. O empresário Jorge Mendes apresentou-lhe alguns vídeos do jovem, então com 20 anos, que estava a 'explodir' na pré-época do Vitória de Guimarães. Tanto assim que os minhotos lhe renovaram o contrato, pouco tempo depois de ter chegado, aumentando a cláusula de rescisão. O United não quis perder tempo e pagou 8,8 milhões de euros para ultrapassar a concorrência pela nova coqueluche do futebol português.
Os méritos da transferência são devidos também a Jorge Mendes, seu empresário.

“Não vou dizer que falo com o Jorge Mendes todos os dias porque ele tem muito que se preocupar, tem muito trabalho, mas nunca tive razão de queixa dele. O que como hoje, o que a minha família come, o que eu visto, o que tenho, é tudo devido ele, caso contrário não seria o que sou hoje. Ele apostou em mim, meteu-me onde me meteu. Sempre que precisei dele, liguei ou mandei SMS, ele respondeu de volta. Se for uma coisa importante, se lhe ligar, ele vai estar lá para ajudar. É uma das pessoas mais importantes da minha vida, é como se fosse um pai”, elogia.

Marcar 40 golos em seis jogos: que belo cartão de visita!

Foi no European Street Football Festival de 2009, na Bósnia, que Bebé deu nas vistas. Em seis jogos, marcou 40 golos. Bebé integrava a equipa portuguesa juntamente, com mais três rapazes da Casa do Gaiato, de Santo Antão do Tojal, em Loures. Foram escolhidos pela CAIS. Na Bósnia, tornou-se uma estrela.

Rapidamente começaram a aparecer olheiros e outras pessoas ligadas ao futebol, maravilhadas com as capacidades técnicas do gaiato Bebé. O Estrela da Amadora, que estava na Segunda Divisão B, recrutou-o ao Loures. Aos 18 anos, ainda com idade júnior, treinava e jogava com os seniores, num clube com grandes dificuldades.

Da Casa do Gaiato para o Manchester United: uma viagem antecipada

Bebé deixava Portugal, com 19 anos, sem nunca ter feito um único minuto pela equipa principal do Vitória de Guimarães. No ano anterior, ainda com idade júnior, apenas tinha realizado 27 partidas e marcado quatro golos ao serviço da equipa principal do Estrela da Amadora, clube que o recrutou ao Loures em 2008/2009. Passou de não ter nada a ter tudo. Do futebol de rua para a exigência de um clube como o Manchester United. Se no Estrela da Amadora, os 1100 euros que recebia por mês já eram uma loucura para o miúdo da Casa do Gaiato, que dizer dos 97 mil que foi ganhar por mês no Manchester United? Talvez tenha saído demasiado cedo de Portugal, mas o comboio do Manchester United não passa na porta de toda a gente... a toda a hora.

"Quando o comboio passa, tens de o apanhar porque pode não voltar a passar [...]. Mas não me arrependo de nada, só lamento o facto de não ter aproveitado melhor as oportunidades que me deram. Se fosse agora, com 27 anos, seria tudo diferente porque se estivesse num clube grande, estaria na primeira equipa. Sou um jogador crescido, mais experiente, já passei por vários clubes, vários treinadores e, estando agora num grande, teria mais oportunidades para jogar", garante Bebé.

A transferência de Bebé para o colosso inglês parecia um conto de fadas. O próprio jogador nem queria acreditar quando começou a ler na imprensa que os 'red devils' estavam interessados nos seus serviços.

"Vinha da Segunda Divisão B com o Estrela da Amadora e sabia que jogava bem, mas era para um Marítimo, um Vitória de Guimarães, para essas equipas é que fazia sentido ir. Mas para o Manchester United.... Durante algum tempo encarei tudo com alguma incredulidade, até estar em Inglaterra e no meu primeiro treino. 'Será que é verdade? Será que estou aqui à experiência?' Mas quando vês que estás mesmo aí, com as pessoas, a treinar ao lado de um Giggs, Rooney, Ferdinand...", conta o avançado.

O encontro com Alex Ferguson foi também impactante.

Bebé, num jogo com a camisola do Manchester United
Bebé, num jogo com a camisola do Manchester United créditos: Lusa

"Na altura fui com o meu empresário [Jorge Mendes]. Batemos à porta [do seu gabinete], entramos, vejo o Alex Ferguson e digo para mim: 'É ele, é ele, é o famoso e tal, que toda a gente conhece'. Era alguém que estava habituado a ver apenas pela televisão. Fiquei um pouco surpreendido. Mas lembro-me de que as primeiras palavras dele é que eu tinha de mudar [a minha imagem], que ia ser um jogador completamente diferente, outro Bebé e percebi que era por causa do meu cabelo. Ele não me disse para cortar o cabelo [que nessa altura usava o cabelo comprido, com rastas] mas nesse mesmo dia, a tarde fui cortar o cabelo", recorda Bebé, que no United passou a ser conhecido por Tiago, o nome que ostentava na camisola.

Na primeira época no Manchester United, Bebé fez apenas sete jogos pela equipa principal (marcou dois golos, um na Taça de Inglaterra e outro na Liga dos Campeões, frente ao Bursaspor) e 11 pela formação secundária (cinco golos). A ideia de Ferguson, tal como tinha feito com muitos jovens que tinham passado pelo clube, era fazer evoluir o extremo para transforma-lo num jogador de topo. As qualidades estavam todas lá: velocidade, drible, cruzamentos, remate, rapidez. Tudo num jovem de 20 anos, com 1,90 metros. O futebol ainda era de rua, anárquico, pelo que era preciso domestica-lo. E terá sido aí que tudo falhou.

Um ano perdido com lesão grave e a 'explosão' no Paços Ferreira

Bebé festeja golo do Paços de Ferreira juntamente com Sérgio Oliveira
Bebé festeja golo do Paços de Ferreira juntamente com Sérgio Oliveira créditos: Lusa

Na temporada seguinte, em 2011/2012, os responsáveis do Manchester United emprestaram Bebé ao Besiktas, da Turquia, numa equipa que contava com os portugueses Ricardo Quaresma, Simão Sabrosa, Hugo Almeida, Manuel Fernandes, Júlio Alves (irmão de Bruno Alves) ainda Sidnei, ex-Benfica. Com 21 anos, o jovem extremo já tinha tudo traçado na sua cabeça: fazer uma boa época no Besiktas para mostrar aos responsáveis do Manchester United que estava pronto para primeira equipa. Começou por agarrar o lugar, mas uma lesão grave nos ligamentos do joelho ao serviço da seleção de Sub-21 de Portugal, num jogo contra a Eslováquia a 9 de agosto de 2011 atrasou o processo de desenvolvimento de um jovem que só tinha começado a levar o futebol a sério aos 16 anos, no Estrela da Amadora.

"A lesão afetou-me muito, atrasou a minha carreira. Passei um ano a recuperar. Sem a lesão, tinha feito uma grande época e talvez teria voltado para ser titular no United. Passei um pouco mal, a recuperação não foi fácil. Tive a felicidade de ter a família ao meu lado, dos meus amigos, já que isso afetou-me muito psicologicamente. Mas graças a Deus fui forte, ", recorda.

Depois de ser operado pelo médico José Carlos Noronha, Bebé encetou um período de recuperação que o levou a duvidar se alguma vez voltaria a pisar os relvados.

"Chorava muito, chorava de dor, dizia a mim mesmo que nunca mais ia recuperar, perguntava-me porque isto estava a acontecer comigo, 'Será que é um sinal de Deus a avisar-me para ter mais calma?', não sei. Acho que não merecia aquela lesão naquela altura. É uma lesão grave, que pode acabar com a carreira de um jogador, não a desejo a ninguém", conta.

Passava oito horas na fisioterapia por dia, na tentativa de voltar o mais cedo possível. Regressaria ao United para fazer seis jogos pelas reservas. Voltaria a ser emprestado, agora ao Rio Ave, onde marcou dois golos em 19 partidas. Seria no Paços de Ferreira que Bebé iria encontrar a estabilidade há muito procurada, pelas mãos de Jorge Costa. Pelos 'castores', o extremo/avançado fez 13 golos em 39 partidas, na época 2013/2014.

"Quando [o Jorge Costa] chegou, veio ter comigo e perguntou-me: 'O que queres fazer da tua vida? Não te vou pedir para defender que não és bom a defender, só quero que jogues do meio-campo para a frente e marques golos'. Deu-me essa confiança, puxava por mim em todos os treinos, parecia um pai para mim. Então só tinha de fazer o que ele estava a pedir, fazer golos como forma de agradecer o que ele estava a fazer por mim", sublinha.

No Benfica, clube do coração, com Jesus, tinha tudo para dar certo..., mas não deu

Bebé com a camisola do Benfica
Bebé com a camisola do Benfica créditos: Lusa

"Cansado de treinar e não jogar", Bebé "não queria estar por aí e só dizer que era jogador do Manchester United". Após a grande época no Paços de Ferreira, o miúdo da Casa do Gaiato volta ao United para tentar convencer os responsáveis a aceitar a rescisão do contrato. Bebé queria sair para um clube onde pudesse mostrar o valor. E aí apareceu o clube do coração. Em 2014/2015, Bebé fechava o lote de contratações do Benfica (12, ao todo), que pagou três milhões de euros por metade do seu passe.

"Assinar pelo Benfica dos momentos mais felizes da minha vida. É o meu clube do coração, desde pequenino. […] Lembro-me de estar a ir para um jogo das reservas [do Manchester United], no último dia do mercado de transferências, quando chego, liga-me o empresário e diz-me: 'Já és jogador do Benfica, vais assinar, não jogas'. E eu volto a casa com uma alegria tremenda, a fazer logo as malas. Ia para a minha cidade, jogar no clube do meu coração, onde sempre quis jogar. Os meus amigos são quase todos benfiquistas, a minha família é tudo do Benfica, estava no paraíso nessa altura".

Muito do que faço hoje aprendi com o Jesus. Taticamente é o melhor treinador que já tive.

Mas nem tudo foram 'rosas'. Bebé não estava preparado para acompanhar a exigência de Jorge Jesus, mas também para a concorrência de Salvio, Gaitán, Talisca, Pizzi, Ola John, Sulejmani. Um ultimato do técnico ao extremo, então com 24 anos, não surtiu efeito. Seguiria novo empréstimo, agora para o Córdoba.

"Um dia chamou-me a parte, a mim e ao Derlei, e disse: 'Tens um mês para te adaptar ao sistema do Benfica, à tática, se não, vou emprestar-te', assim, frontal. E eu já ia mais concentrado para os treinos, para o campo”.
Apesar de lamentar não ter tido oportunidades, o extremo só tem palavras de elogios para com Jorge Jesus.

"No início era muito difícil porque o Jorge Jesus treinava muito a parte tática e onde eu não era bom. Mas nos seis meses que estive no Benfica aprendi o que sei hoje. Muito do que faço hoje aprendi com o Jesus. Taticamente é o melhor treinador que já tive, [...] diz-te o que pensa, não te podes ir abaixo com as suas palavras. Ele é capaz de olhar para ti e dizer: 'Tu não jogas nada, nem sei porque te contratei'. Mas ele diz isso para te motivar, mas se fores fraco mentalmente, acabas por cair". recorda.

Ganhar confiança e forma no Rayo para 'explodir' na próxima época no Eibar

Na segunda metade da época 2014/2015, Bebé foi emprestado ao Córdoba (18 jogos) na temporada seguinte, ao Rayo Vallecano, onde foi quase sempre titular. Marcou três golos em 37 partidas, tendo convencido o Eibar a comprar o seu passe ao Benfica em 2016/2017. Fez 26 jogos e marcou cinco golos, mas esta temporada pediu para sair em janeiro para tentar ser feliz novamente no Rayo Vallecano, agora na Segunda Liga espanhola.

"As coisas estão a correr bem, vou jogando de início, vou ajudando a equipa a atingir os seus objetivos. Neste momento não estou a 100 por cento, mas vou lá chegar”, garante. O Rayo Vallecano é um dos clubes que está em zona de subida na Segunda Liga Espanhola.

"Ainda sou jovem, 27 anos, tenho muitos anos pela frente. Faltava-me um pouco de estabilidade, algo que encontrei no primeiro ano no Eibar, quando me compraram, deixei de andar de um lado para outro com empréstimos. Este empréstimo de seis meses ao Rayo é para estar bem para voltar na próxima época e rebentar na Primeira Divisão. Estou no clube perfeito para ter a estabilidade e tenho tudo o que preciso até agora", conta, desejoso de mostrar o seu valor. Leva um golo marcado em nove jogos.

Bebé salta com Bale, num jogo entre o Rayo Vallecano e o Real Madrid
Bebé salta com Bale, num jogo entre o Rayo Vallecano e o Real Madrid créditos: AFP

De não ter nada a ter tudo: "Fui para o Estrela da Amadora ganhar 1100 euros. Para mim era como se fosse o Euromilhões"

Bebé nunca escondeu as origens humildades. Filho de emigrantes cabo-verdianos, desde cedo que Bebé se habituou a viver sem os pais. Aos dez anos, a avó entendeu que o melhor seria coloca-lo num orfanato, onde pudesse ter outra educação. Uma decisão que poderá ter salvo a vida ao jogador português.

"A educação que tinha da minha família, da minha avó e do que recebi na Casa do Gaiato, fundamental para o que sou hoje, por tudo o que passei... Fizeram-me homem, entrei de uma forma e sai de outra", diz Bebé, antes de contar como foi parar à Casa do Gaiato, em Loures.

"Vivia num bairro social e a minha avó viu o que se passava à volta, na minha vida, na juventude, e ela disse: 'Se não o tirar daqui, vou ver o meu neto na rua, na prisão, pode acontecer-lhe alguma coisa...Tive um tio que já tinha passado pela Casa do Gaiato e então surgiu a ideia de lá ir. Mas não sabia o que era a Casa do Gaiato e para onde ia. Lembro-me de chegar a casa e de encontrar a minha mãe e avó a fazerem as minhas malas e a dizerem-me que ia passar um fim-de-semana fora, num sítio com muitas crianças, piscinas e tal, e eu 'Fixe, vou passar um fim-de-semana fora'. E este fim-de-semana virou dez anos".

E foi na Casa do Gaiato que Bebé aprendeu alguns valores que transporta consigo até hoje. Em todas as entrevistas que dá, só tem elogios pelos momentos que passou o orfanato. Estava tão apegado aos amigos e a instituição que recusou propostas do Marítimo, Olhanense e Belenenses, por quem esteve quase a assinar.

"Depois apareceu o Vitória de Guimarães na Casa do Gaiato para assinar contrato profissional comigo, mas da primeira vez disse que não. Disse que não queria jogar futebol, que estava bem na Casa do Gaiato, não queria deixar os amigos. E eles disseram-me que podia levar quatro amigos. E eu rejeitei. E as pessoas: 'Mas está doido ou quê?'. Não tinha a noção que o V. Guimarães era uma equipa grande. E passado um mês voltaram para fazer pressão e aí aceitei. Foi um dos dias que mais custou, sair da Casa do Gaiato. Porque mesmo no V. Guimarães e nos primeiros meses no Manchester United, vivia lá. Passei dez anos lá, não foi fácil".

A origem humilde, as dificuldades e os momentos passados na Casa do Gaiato fizeram Bebé dar valor as coisas, ao dinheiro. Hoje, o que mais o move é poder jogar futebol e ajudar a família. Mas a infância não foi fácil.

"Assinei o meu primeiro contrato profissional com o Estrela da Amadora. Ganhava 1100 euros, parecia uma loucura. Estava no colégio [Casa do Gaiato, de Loures] e receber 1100 euros, para mim era o Euromilhões. E como não pagava nada, era só gastar com os meus amigos. Era o único que recebia na altura no Estrela da Amadora na Segunda B. Eles não pagavam. Como sabia que era o craque da equipa, era o único que recebia. Quando falhavam, eu ligava e dizia. 'Não vou treinar'. Então os treinadores e as outras pessoas iam a Casa do Gaiato e diziam-me, 'tens de ir treinar'. Eu a querer rescindir porque tinha mais clubes interessados e eles a prometer dar mais dinheiro e tal", sublinha.

Assinei o meu primeiro contrato profissional com o Estrela da Amadora. Ganhava 1100 euros, parecia uma loucura.

No Estrela da Amadora, Bebé começou a perceber que o futebol podia dar-lhe um futuro melhor. Mas também será foco de problemas. Em apenas um ano, passou de 1100 euros mensais no Estrela da Amadora para 97 mil e 400 euros por mês no Manchester United, num total de 1,169 milhões de euros por ano, de acordo com dados revelados pelo 'Football Leaks'. Terá recebido ainda 650 mil euros dos 'red devils', como prémio de assinatura. De repente, Bebé podia ter o que sempre sonhou, mas nunca teve condições. Agora, podia ajudar a família.

"No início, se calhar queres comprar as coisas que tu nunca tiveste e agora podes. Ver umas sapatilhas que custam 200 euros e que nunca a tua avó te deu, mas agora poderes comprar, poderes dar um também ao teu irmão, poderes comprar o teu carro, no Natal comprares uma prenda para cada um ou dares uma prenda a quem fez anos. É das melhores coisas da vida: teres a possibilidade ter um trabalho que tem permite ajudar a tua família".

Quando recebeu o primeiro salário no Manchester United, nem sabia o que dizer.

"Quando recebi o envelope do recibo do primeiro ordenado, lembro-me de virar para a pessoa que estava comigo, e perguntar se aquilo eram cinco meses de salário e ele disse que era um mês. Comecei a rir. Lembro-me também que a primeira vez que fui comprar roupa, fui com uma pessoa amiga, fomos à Gucci e essa pessoa disse-me, 'Não, vamos aqui a Diesel e Salsa e tal, que é mais humildade e tal'. No mês seguinte fomos ao mesmo centro comercial, essa pessoa queria ir a Diesel e eu disse, 'Não, vem aqui, vamos comprar algo deste lado'. E começamos a rir. Tive momentos desses e é normal", recorda Bebé, assumindo também culpas por não ter vingado nos clubes de topo por onde passou.

Bebé, com a camisola do Vitória de Guimarães
Bebé, com a camisola do Vitória de Guimarães créditos: Lusa

Os erros do passado e os exemplos de Fábio Paím e Rúben Semedo

"Cometi alguns erros, podia ter feito assim e assado, podia ter comprado isto e aquilo, mas também é da idade e por tudo o que passei e de onde vim. Hoje em dia sou um homem completamente diferente, com ideias diferentes. Quero uma família, poder ter as minhas coisas, ter estabilidade, e estou a trabalhar para isso", garante.

Assumindo que também podia ter feito mais, Bebé lamenta não ter tido verdadeiras oportunidades para mostrar o seu valor. "Não sou de ter mágoa ou estar chateado com ninguém. Sinto que me podia ter dado mais oportunidades, mas futebol é assim. Mas se chegas a um certo momento e vês que as pessoas não te estão a dar valor, podes cair um pouco, desanimar”.

Tal como Bebé, jogadores como Fábio Paim e Rúben Semedo também vieram de famílias humildes. O primeiro "teve o mundo aos seus pés," mas acabou por não singrar. Bebé tem sua teoria sobre o que terá acontecido com o antigo jogador do Sporting, aquele que era bem melhor que Cristiano Ronaldo.

"Um miúdo para se perder é muito rápido. Se não tiver uma família estável, que lhe ajude, perde-se. […]. As pessoas deviam ter algum cuidado quando criticam um jogador e dizem que se perdeu. O exemplo do Paím que falam muito que se perdeu e tal, mas se calhar a culpa não foi só dele. Se calhar foi culpa da família que não soube lhe dar os conselhos certos, ajudar, de pessoas que estavam com ele só para se aproveitar, falsos amigos [...]. Esteve no top dos topos, era um dos melhores que apareceu em Portugal, tinha o mundo aos seus pés, deslizou um pouco, começaram a desparecer as pessoas. Claro que isso o afetou. […]. É um dos melhores exemplos nesse aspeto. Dá para ver a humildade da pessoa, no olhar, na forma como fala. Tive pena que ele não tivesse demonstrado a qualidade, o valor dele".

 As coisas de que Rúben Semedo é acusado, são muito graves. Não é ir ao supermercado e roubar uma peça de fruta.

 

Além de Paím, Bebé dá outro exemplo de um jovem a passar dificuldades. Rúben Semedo era dos jogadores que podia ser convocado por Fernando Santos para o Mundial2018. Nesta altura, está na prisão, onde aguarda julgamento pelos crimes de que é acusado: tentativa de homicídio, agressões, ameaças, detenção ilegal, posse ilegal de armas e roubo com violência.

"Conheço o Rúben Semedo, é meu amigo, não acredito em nada do que contam que se passou. E não digo isso por ele ser meu amigo. Mas as coisas vão melhorar, é novo, vai acabar por sair e recuperar o tempo perdido e voltar a jogar futebol, voltar para a família e amigos. Deus não dorme. Da minha parte tem todo o apoio, espero que saia logo que as coisas se resolvam. Estar no topo como ele estava, um futuro central da Seleção portuguesa, e passar por isto, não é fácil. Imagino como está psicologicamente. As coisas que lhe estão a ser apontadas, de que é acusado, são muito graves. Não é ir ao supermercado e roubar uma peça de fruta", lembra.

Depois de ver passar o 'comboio' da Seleção A de Portugal, Bebé espera que a FIFA faça algumas mudanças no regulamento, de modo a permiti-lo jogar pela seleção de Cabo Verde. O organismo que rege o futebol mundial vai estudar a proposta da Federação Cabo-verdiana de Futebol, de modo a permitir jogadores que tenham atuado pelos escalões de formação dos países onde nasceram, possam representar a seleções dos países dos seus pais e avós.

"Já tenho dupla nacionalidade, o passaporte cabo-verdiano e toda a documentação em dia. já falei com o selecionador e também com o presidente da Federação Cabo-verdiana de Futebol. Estou pronto, estamos a espera que coisas se resolvem. Estou com a disposição, com todo o amor, com todo o carinho, de representar Cabo Verde. Ainda por cima a minha avó e a minha família são cabo-verdianos...vai ser uma grande festa em casa", antevê.

Após passar por 10 clubes em apenas 10 anos, Bebé quer encontrar a estabilidade no Eibar e ter continuidade, para que possa ganhar confiança e mostrar o seu valor. O sonho de voltar ao topo continua vivo.