António Carraça e Virgílio Lopes, ex-futebolistas que presenciaram a estreia de Vítor Oliveira como treinador na I Liga há 40 anos, apontaram hoje a liderança e a inteligência como particularidades do atual técnico do Gil Vicente.

"Enquanto jogador era um capitão na aceção da palavra. O seu posicionamento no meio-campo, a mente organizada e a formação superior em engenharia davam alguma vantagem para conseguir liderar a equipa e tentar fazer um milagre", explicou à agência Lusa António Carraça, aludindo à reta final da temporada 1978/79 com as cores do Famalicão.

Após 32 anos afastados do principal escalão nacional, os minhotos regressaram à elite pela mão do argentino Mario Imbelloni e desenharam uma primeira volta "de grande qualidade", que resultou no oitavo posto, fruto de 14 pontos conquistados em 15 jornadas.

O cenário inverteu-se e o Famalicão caiu pela primeira vez na zona de despromoção à 27.ª e antepenúltima jornada, que antecedeu a saída de Imbelloni e a ascensão de Vítor Oliveira ao cargo de treinador-jogador, quando faltava defrontar Sporting de Braga e Belenenses.

"Tínhamos uma equipa recheada de bons jogadores, mas o futebol é isto mesmo: os golos deixaram de aparecer e a direção tomou essa decisão a duas jornadas do fim. Já se vislumbrava que o Vítor, depois da carreira que teve como jogador, pudesse dar continuidade e ser um treinador de sucesso", partilhou António Carraça.

O empate caseiro com os 'arsenalistas' (2-2) e a derrota no Restelo (2-0) confirmaram a descida dos nortenhos à II Liga na 13.ª posição, com os mesmos 24 pontos do Beira-Mar, que se salvou por ter marcado mais três golos do que a turma de Vila Nova de Famalicão.

A mudança técnica não evitou o pior cenário para as hostes minhotas, mas aquela igualdade diante do Sporting de Braga, em 10 de junho de 1979, deu início à carreira do médio Vítor Oliveira ao leme de clubes primodivisionários.

Ao contrário do antigo companheiro de balneário, Virgílio Lopes perdeu as memórias desse desafio, embora ainda recorde a postura de "um indivíduo extraordinário, um bom amigo e conselheiro, sempre disponível para ajudar e aconselhar".

"Marcou o facto de ser muitíssimo inteligente e de ter transportado isso para a gestão da carreira. Se merecia maiores ambições? Provavelmente não as teve por dizer aquilo que pensa. Acontece é que vemos alguns treinadores com pouca qualidade a treinar boas equipas, enquanto técnicos com muita qualidade dificilmente têm uma oportunidade numa equipa que lute por títulos", estabeleceu à Lusa o ex-defesa.

À parte dos 400 jogos no campeonato, Virgílio admite que Vítor Oliveira trabalhou muitas vezes "por escolha própria" na II Liga, patamar no qual festejou 11 promoções em 18 presenças, adquirindo o estatuto de 'rei das subidas', em vez de acompanhar as equipas que sobe.

"Estava na altura de almejar outras coisas. É um dos treinadores mais competentes em Portugal e sempre me fez alguma confusão que clubes de outra dimensão não tivessem apresentado um projeto para ele agarrar e desenvolver", reconheceu o antigo internacional pelas 'quinas'.

Indiferente ao nível competitivo em causa, António Carraça julga que preservar "o mesmo ADN" tem sido "um dos polos aglutinadores" do sucesso do técnico gilista: "É uma pessoa de princípios e de relação fácil com as pessoas que o rodeiam. É importante humanizar o futebol, o que facilita a nossa tarefa enquanto líderes."

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