O ex-presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, revelou esta quarta-feira durante o segundo dia da fase de instrução do caso de Alcochete que os jogadores do Sporting rejeitaram meio milhão de euros para vencer Benfica e Marítimo, nos dois últimos jogos do campeonato português.

"Antes do jogo com o Benfica foi oferecido um prémio de meio milhão aos jogadores, antes do jogo com a Madeira igual e os jogadores recusaram. Nunca tinha visto um funcionário a recusar um prémio. Coincidência ou não o Sporting não consegue cumprir os objetivos. Um destes jogos originou o episódio no aeroporto. Nunca tinha visto um funcionário ou jogador a recusar prémios de performance", revela Bruno de Carvalho, em declarações citadas pelo Correio da Manhã.

Bruno de Carvalho falou ainda das críticas aos jogadores, justificando-as com o facto de querer melhorar a performance da equipa de futebol e de todas as modalidades: "Só houve um capitão que não percebeu isso: Rui Patrício".

O antigo líder dos leões confirmou ainda que dispensou Jorge Jesus na reunião que ocorreu na segunda-feira 14 de maio de 2018, um dia antes dos ataques na Academia de Alcochete.

"Foi-lhe comunicado que não faria parte da época seguinte. Não cumpria a sua postura de zelo. Que era um funcionário caro, eram 9 milhões para o clube. Foi-lhe dito que o ciclo dele havia terminado. Mas isso não quer dizer que não fizesse o treino do dia seguinte ou o jogo contra o Aves", afirmou Bruno de Carvalho em tribunal.

O ex-presidente do Sporting disse ainda que a decisão de passar o treino para a tarde foi de Jorge Jesus. "Ao ser confrontado que iria haver reunião com os advogados do Sporting para ver a forma de rutura contratual, quando se acalmou, disse: 'Prefiro passar o treino para a tarde, porque vai haver reunião com os advogados de manhã'. Jorge Jesus tem razões que a própria razão desconhece. Deu folga de uma semana aos jogadores à revelia da administração"

Bruno de Carvalho, acusado pelo Ministério Público de ser autor moral do ataque de 15 de maio de 2018, de que resultaram agressões a jogadores da equipa principal de futebol e elementos da equipa técnica, está a ser ouvido pelo juiz de instrução criminal Carlos Delca a partir das 14h00, no Campus da Justiça.

O líder 'leonino' à data dos factos está acusado, como autor moral, de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 de ofensa à integridade física qualificada, de 38 de sequestro, de um crime de detenção de arma proibida e de crimes que são classificados como terrorismo, não quantificados.

O processo pertence ao Tribunal de Instrução Criminal (TIC) do Barreiro, mas, por razões de logística e de instalações, a fase instrutória decorre em Lisboa, na presença de jornalistas.

Apesar de enfrentar um novo pedido de escusa por parte de um advogado, o juiz Carlos Delca decidiu avançar com as diligências, declarando o caráter "de natureza urgente" do processo, uma vez que o prazo para a conclusão da instrução é 21 de setembro, e alegando que aquela é uma "forma hábil de empatar o tempo" por parte dos arguidos.

O início da fase de instrução do ataque à Academia do Sporting, em Alcochete, no distrito de Setúbal, já teve dois adiamentos, originados pela apresentação, por parte de advogados de arguidos, de três pedidos de afastamento de Carlos Delca, todos indeferidos pelo Tribunal da Relação de Lisboa (TRL).

Em prisão preventiva mantêm-se 36 dos 44 arguidos no processo, incluindo o líder da claque Juventude Leonina (Juve Leo), Nuno Vieira Mendes, conhecido como 'Mustafá', que viu em 06 de junho o Supremo Tribunal de Justiça negar-lhe uma providência de 'habeas corpus' (pedido de libertação imediata) e o ex-oficial de ligação aos adeptos Bruno Jacinto.

O antigo presidente da claque Juve Leo Fernando Mendes mantém-se ainda em prisão preventiva, uma vez que o juiz Carlos Delca ainda não decidiu sobre o requerimento apresentado pela procuradora Cândida Vilar, no qual pede que este arguido seja posto em liberdade, com base num problema de saúde grave.

Em janeiro deste ano, o TIC do Barreiro declarou a especial complexidade do processo da invasão à Academia do Sporting, pedida pelo MP, o que, consequentemente, dilatou o prazo de prisão preventiva dos arguidos que se encontram presos.

Esta decisão teve como consequência direta o alargamento do prazo (até 21 de setembro) para que o TIC do Barreiro profira a decisão instrutória (se o processo segue para julgamento), sem que 23 dos arguidos sejam colocados em liberdade.

Os primeiros 23 detidos pela invasão à Academia e consequentes agressões a futebolistas, técnicos e outros elementos da equipa 'leonina' ficaram todos sujeitos à medida de coação de prisão preventiva em 21 de maio do ano passado.

Aos arguidos que participaram diretamente no ataque à Academia do Sporting, em Alcochete, em 15 de maio de 2018, o MP imputa-lhes na acusação a coautoria de crimes de terrorismo, de 40 crimes de ameaça agravada, de 38 crimes de sequestro, de dois crimes de dano com violência, de um crime de detenção de arma proibida agravado e de um de introdução em lugar vedado ao público.

A Mustafá e Bruno Jacinto são imputados pelo MP os mesmos crimes de atribuídos a Bruno de Carvalho. Mustafá está também acusado de um crime de tráfico de droga.

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