O treinador Jorge Castelo, metodólogo na preparação física de equipas de futebol, defendeu hoje que os plantéis com maior densidade competitiva ao longo da temporada vão lidar melhor com a pausa imposta pela pandemia da covid-19.

“O impacto da paragem tem diferentes amplitudes e há que diferenciar as equipas com cerca de 50/60 jogos das que levam entre 30 e 40. Naturalmente, uma equipa com menos competição deverá sentir um pouco mais isso, mas falamos de jogadores profissionais, que trabalham há muito tempo e não perdem em poucos dias aquilo que adquiriram ao longo dos anos”, observou à agência Lusa o antigo adjunto de Benfica e Sporting.

Grande parte dos futebolistas tem cumprido planos individuais de treino em casa, procurando atenuar a “diminuição da capacidade de rendimento”, em consonância com as medidas governamentais de contingência, que antecederam o estado de emergência decretado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, na quarta-feira.

“Os treinadores querem que os jogadores estejam em retiro e mantenham uma determinada rotina de esforço. Claro que nada tem a ver com o a intensidade do treino coletivo, mas os atletas correm, fazem flexibilidade, alongamentos ou trabalho com pesos e dispõem de um conjunto de instrumentos para se manterem ativos”, detalhou.

À falta de “espaços suficientes para treinar individualmente com bola”, Jorge Castelo lembra que as bicicletas ergométricas e as passadeiras de corrida incentivam alguma exigência física à distância, sob pena de os jogadores se “sentirem mal quando deixam de ter essa rotina”, enquanto lidam com restrições sociais e ajustes alimentares.

“O plano nutritivo tem de refletir o plano individual de treino. Estou convicto de que as equipas técnicas e médicas fizeram isso, porque há uma tendência para alguns engordarem mal abrem a boca, ao passo que outros queimam tudo aquilo que comem. Esse equilíbrio faz com que o jogador não sinta essas diferenças mais tarde”, explicou.

O treinador, de 63 anos, doutorado em Ciências do Desporto pela Faculdade de Motricidade Humana, considera “inevitável” que o futebol e outras profissões passem a adotar a monitorização à distância a breve trecho, sem beliscar “uma chama ativa entre treinador e jogadores”, ainda que repartindo essa interação por grupos e dias.

“Esse acompanhamento é importante para saber se cumprem o treino e a nutrição, que alterações existem do ponto de vista médico e até mesmo para aconselhar o jogador a ver certos jogos. Aprende-se muito a ver as coisas e a detetar alguns erros que tenham sido cometidos ao longo deste período competitivo”, notou.

Jorge Castelo prevê dificuldades adicionais na gestão dos lesionados, sobretudo em casos de mazelas musculares, articulares ou tendinosas, já que os atletas se deslocam às instalações do clube ou vice-versa para prosseguirem um plano individual de recuperação, em detrimento do habitual esquema personalizado de treino.

As competições futebolísticas estão suspensas por tempo indeterminado, devido ao novo coronavírus, responsável pela pandemia de Covid-19, que infetou de 290 mil pessoas em todo o mundo, das quais mais de 12.700 morreram.

O surto começou na China, em dezembro, e espalhou-se por todo o mundo, incluindo Portugal, que contabiliza 1.280 infetados e 12 mortes.

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