O antigo pivot Carlos Galambas recorda hoje a conquista da Taça Challenge pelo Sporting, há 10 anos, como o momento de “afirmação do andebol português” e o “culminar do trabalho de todos os clubes”.

Na sua terceira presença numa final europeia - as duas anteriores foram disputadas pelo ABC, na Liga dos Campeões, de 1993/94, e na Taça Challenge, de 2004/05 -, Carlos Galambas ergueu o troféu na primeira presença do Sporting numa decisão europeia.

“Para além da importância de o Sporting ter sido o primeiro clube português a conquistar uma competição europeia, foi também o cimentar da qualidade do andebol português, que depois dessa final voltou a erguer o troféu”, disse à agência Lusa Carlos Galambas.

Depois da pioneira conquista dos ‘leões’, na época de 2009/10, o ABC, na sua quarta final europeia, conquistou o troféu em 2015/16, na final ‘fratricida’ com o Benfica, e o Sporting voltou a triunfar na Taça Challenge na temporada seguinte (2016/17).

“Em 2010 [com a vitória do Sporting], foi o culminar do trabalho de todos os clubes que lutavam arduamente, ano após ano, por conseguirem uma conquista europeia”, refere Carlos Galambas, que durante 21 épocas jogou ao mais alto nível.

O antigo pivot, que jogou até aos 38 anos, antes de abraçar as funções de treinador e, depois, diretor, recorda a presença assídua dos clubes portugueses, como ABC, Benfica e Sporting da Horta, nas finais e meias-finais da Challenge como antecâmara do êxito do Sporting.

“Conseguimos ganhar e foi a cereja no topo do bolo. O cimentar de um trabalho árduo, porque todos as conquistas europeias são sempre de valorizar, independentemente da prova, porque há sempre concorrência e outras equipas que também querem vencer”, disse.

Carlos Galambas considera que o Sporting “teve a sorte e a ousadia de ser o primeiro clube a vencer uma prova europeia”, mas atribuiu parte do êxito ‘leonino’ ao trabalho coletivo de todos os clubes portugueses que lutaram também pelo troféu.

O antigo pivot, que é um dos jogadores portugueses com mais internacionalizações, considera que Portugal está bem servido de valores e só espera que a paragem forçada pela pandemia de covid-19 não tenha reflexos negativos na continuação do seu desenvolvimento, quer nos clubes quer na seleção.

“A participação de Portugal no Europeu2020 deixou o andebol na retina de todos, mas agora, com a paragem da modalidade, devido à covid-19, e sem competições, houve uma queda que fez apagar a chama que estava a crescer”, sustentou Carlos Galambas.

O antigo jogador, de 47 anos, espera que depois da pandemia os clubes e a seleção voltem a obter bons resultados e repitam as prestações europeias, como as do FC Porto e Sporting, na Liga dos Campeões, e Benfica, na Taça EHF, afastados esta época pela covid-19.

Carlos Galambas gostaria um dia de regressar às funções de treinador, “para matar o bicho” e partilhar a sua experiência com as camadas mais jovens, transmitindo a mensagem de que “com trabalho e persistência se chega sempre a bom porto”.

Já Paulo Faria, treinador dos 'leões' nessa época, diz que o Sporting venceu "porque era a melhor equipa".

“A conquista da Taça Challenge teve um impacto enorme e, por se tratar do Sporting, ganhou uma dimensão nacional, que não seria possível se fosse, por exemplo, o ABC, de Braga, ou o Águas Santas, da Maia”, explicou à agência Lusa Paulo Faria.

Afastado há três anos do andebol, para abraçar um projeto educativo que lhe ocupa “todo o tempo”, Paulo Faria aponta a conquista do Sporting como “fator impulsionador da modalidade”.

Para o treinador, a conquista da Taça Challenge foi uma espécie de mola impulsionadora, um ‘click’, para os três clubes ditos grandes acordarem para o andebol e investirem, não só ao nível dos orçamentos e jogadores, como na ambição.

“Os plantéis subiram de qualidade, o nível das prestações europeias aumentou e este processo fez com que despontassem jogadores de qualidade, como Rui Silva, Miguel Martins ou, mais recentemente, Luís Frade, reforço do FC Barcelona”, adiantou.

Segundo Paulo Faria, “estes indicadores são um bom sinal e mostram que o andebol português está a produzir valor e a ter resultados”, e o triunfo de há 10 anos do Sporting na Taça Challenge tem a sua quota-parte de responsabilidade no processo.

“Quase que parecia que estávamos ao nível do futebol. Com acompanhamento por parte dos órgãos de comunicação social, notícias e entrevistas. Vivemos esse momento de uma forma muito intensa”, recorda Paulo Faria, traçando rasgados elogios à equipa.

De acordo com o treinador, “o Sporting era a melhor equipa [na Taça Challenge], tinha excelentes jogadores, experientes e habituados ao ambiente dos grandes jogos, e isso deu confiança para encarar todos as partidas de forma a vencer”.

“Conseguimos vencer [o troféu] e ainda bem. Foi uma caminhada pacífica, uma vez que fomos sempre superiores, com maior ou menor dificuldade”, lembra Paulo Faria, que considera a eliminatória com os romenos do SM Dedeman Bacau “o momento decisivo”.

O Sporting defrontou a equipa romena nos quartos-de-final, começando com um triunfo, por 30-24, no Casal Vistoso, em Lisboa (28/03/2010). Apesar da margem confortável, no segundo jogo (03/05/2010), em Bacau, os ‘leões’ perderam, por 23-28.

“Não era fácil jogar nos países de leste. Os ambientes criados tornavam a situação pesada nos jogos, mas acho que foi essa eliminatória, que foi a mais difícil, num cenário algo complicado, a que decidiu que íamos ganhar a prova”, disse.

Paulo Faria recorda que “havia na equipa jogadores que nestes jogos ainda rendiam mais, porque eram talhados para a alta competição e gostavam - e queriam - participar nestas partidas, e isso tornou a missão do Sporting mais fácil”.

“[Com o Bacau] foi a eliminatória mais difícil, num ambiente com uma animosidade fora do normal. Mas nós tínhamos jogadores com muita experiência neste tipo de ambiente e conseguimos ‘aguentar’ e passar”, explica Paulo Faria.

Entre os jogadores mais experientes encontrava-se, por exemplo, Carlos Galambas, um dos mais internacionais do andebol português, que foi colega de Paulo Faria no ABC, tendo ambos participado na final da Liga dos Campeões de 1993/94.

O facto de Paulo Faria ter terminado a carreira de jogador cedo, com 33 anos, em 2005, no Águas Santas, e de ter passado a treinador na época de 2007/08, no clube maiato, levou o antigo central, que também defendeu as cores do ABC e Sporting, a orientar ex-colegas e ex-adversários.

Como treinador do Sporting reencontrou Pedro Solha, o ponta que foi seu colega de equipa no Águas Santas, o lateral-direito Vladimir Bolotskih e Carlos Galambas, com quem jogou no ABC, e o sérvio Vladimir Petric, que, quando Paulo Faria se sagrou campeão pelo Sporting, foi seu adversário no FC Porto.

Embora afastado do andebol, Paulo Faria é presença assídua nos pavilhões, para assistir a jogos, e ainda recentemente declinou o convite para treinar uma das melhores equipas nacionais, porque não podia deixar o seu projeto educativo.

“Não era o ‘timing’. Se algum dia tomar a decisão de voltar, tenho que ter esta parte da minha vida pessoal, em termos do trabalho, muito organizada, para que a minha ausência não seja sentida”, explicou, aludindo ao colégio em Braga.

Paulo Faria admite voltar, “nem que seja noutras funções”, porque sente a falta do pavilhão, do balneário e do cheiro da resina (das bolas), algo “inevitável para alguém que fez do andebol a sua vida” desde os nove anos, nas camadas jovens do ABC, até aos 45.

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