O SAPO Desporto inicia a sua viagem pelo mundo das artes marciais, mais propriamente pelo MMA (sigla inglesa da artes marciais mistas). O The Cage pretende desmistificar a modalidade e dar voz aos atletas portugueses que vivam esta modalidade ao máximo.

Conor Mcgregor é o nome mais conhecido do MMA e partilha balneário com Pedro Carvalho, o vimaranense de 24 anos que vive em Dublin a perseguir o seu sonho. Em conversa connosco, em Joane, concelho de Vila Nova de Famalicão, o atleta luso partilhou os segredos da sua infância, os riscos tomados e até onde está disposto a ir para alcançar o que pretende.

No dia 07 de setembro de 2019, Pedro Carvalho apurou-se para os quartos de final do Grande Prémio Mundial Bellator - a segunda maior liga de MMA no mundo - após ter vencido por ‘submissão' o norte-americano Sam Sicilia, em San Jose, no estado da Califórnia (Estados Unidos), mas pode já sagrar-se campeão, por enfrentar o detentor do título, em 13 de março, na arena Mohegan Sun, em Uncasville (Connecticut, Estados Unidos).

O brasileiro Patrício Freire, mais conhecido como Pitbull, é o adversário que se segue na categoria de peso-pena do circuito Bellator. A residir na Irlanda desde 2017, o lutador vimaranense venceu os quatro combates que disputou desde a entrada no Bellator, em 2018, e acabou escolhido para o combate por Patrício Freire, lutador que venceu 30 das 34 lutas realizadas no circuito desde 2010 e que tem esse direito enquanto campeão mundial no peso inferior a 65,8 quilos desde abril de 2017.

'Chama-me pelo teu nome' é o nome desta primeira entrevista e a razão é simples: Pedro Carvalho quer ouvir o seu nome - e modalidade - em manchetes de sites, televisões e jornais.

SAPO Desporto - Como foi a tua infância?

Pedro Carvalho - Nasci e cresci em Guimarães, a minha mãe é transmontana, mas veio para Guimarães aos sete anos e a minha infância foi… não sei bem qual é bem a definição… tranquila. Venho de um ‘background’ pobre, bastante pobre, mas não me posso queixar, nunca me faltou nada, graças a ela e à minha tia, as duas mulheres que me criaram.

SD - E o teu pai?

PC - Nunca tive pai, nunca o conheci… Como não fez parte da minha vida nunca me afetou. Sei que está vivo, mas a minha mãe e tia sempre me deram amor a dobrar, atenção e carinho, nunca me faltou nada.

SD - A tua mãe sempre te deu liberdade para escolheres o que querias?

PC - Era aquele miúdo que andava descalço na rua... a minha mãe sempre foi super protetora, mas nunca me privou de nada, nem para brincar nem para o que queria da vida. Lembro-me de quando era pequeno, cerca de seis anos, e disse-me: “Olha Pedro, vais começar a ir para a catequese”, eu nem sabia o que era isso. Explicou-me e disse-lhe que não queria e aceitou sem qualquer tipo de problemas. Sempre tivemos uma relação aberta.

SD - A tua mãe tem orgulho em ti?

PC - Geralmente tem muito orgulho. No que toca ao MMA nunca se opôs. Até porque ela era fã da modalidade. Um dia estávamos os dois a ver SIC Radical e deu o anúncio de um programa estranho que ia começar a dar, aquilo gerou uma curiosidade mútua, depois percebemos que se tratava de MMA e foi amor à primeira vista. Tinha 12 anos, sem ter a menor ideia se existia esse desporto em Portugal, quanto mais em Guimarães.

Passados uns tempos, em conversa com um colega com quem eu jogava futebol, perguntei-lhe o que ia fazer mais tarde, ele disse que ia treinar, eu questionei em que clube, ao qual respondeu que não ia jogar futebol, mas sim praticar MMA. Ali o meu mundo parou, com 13 anos, falei com a minha mãe e dias depois, estávamos a fazer a inscrição no Sport Gym, em Guimarães. Eu gostava de jogar futebol, até tinha jeito, mas não me preenchia. Cheguei a faltar a aulas - sei que não é um bom exemplo - para ir treinar MMA.

SD - Foi aí que percebeste o que querias?

PC - Sabia que era isto o que queria para o meu futuro. Cheguei a ter discussões com professores, que diziam para ter os pés bem assentes na terra quando lhes dizia que queria fazer disto a minha vida. Desafiavam-me sempre: ‘Diz-me um português que o tenha conseguido?’.

A minha mãe sempre me apoiou, disse para continuar a treinar, mas pediu-me para continuar a passar de ano na escola. Fiz esse pacto e concluiu o 12.º ano.

SD - Eras violento?

PC - Nunca fui uma criança violenta, mas também não engolia em seco. Depois de começar a fazer MMA, e com todos os valores que são passados nas artes marciais, amenizou ainda mais. Faço MMA há 11 anos, tenho 24, comecei com 13, e em situações de atrito na rua devo ter tido duas, e nunca fui eu a provocar.

SD - Sentes-te mais seguro quando te deparas com conflitos?

PC - Eu acho que a maioria das pessoas que praticam este desporto são menos violentos, até pelos valores que lhes são transmitidos. Porque têm noção do que podem fazer a outras pessoas. Eu acho que as pessoas ainda hoje misturam o facto de o MMA ser um desporto de combate com violência. 75% dos atletas são contra a violência, são os primeiros a evitar que algo de mal aconteça.

"Existe uma falta de conhecimento muito grande"
Pedro Carvalho em entrevista ao SAPO Desporto
créditos: Sportinforma/João Agre

SD - Mãe sofre com estes combates?

PC - Atualmente, a minha mãe (52 anos) não consegue ver os combates. tem a noção da importância do combate. Quando mais noção mais consciente dos perigos. Ela já viu um combate ao vivo, mas nenhum no Bellator. A última luta que viu, fora dessa competição, foi numa cidade ao lado de Dublin. Viu, sofreu, mas depois disso nunca mais conseguiu. Ela diz sempre que vai ver, mas depois não vai.

SD - Como se deu a transição de Guimarães para Dublin?

PC - Aqui em Portugal fiz cerca de dez combates, havia vários torneios a serem feitos, e bons shows, com regularidade. Depois aconteceu aquilo ao João Carvalho - lutador português de 28 anos que morreu, em 2016, dois dias depois de um combate - e, infelizmente, os media portugueses dão mais atenção às tragédias, um pouco também por culpa das pessoas, que é o que querem saber, porque quando se ganha assobia-se para o lado. As pessoas gostam é da tragédia. E depois disso deixou de haver eventos em Portugal.

Em 2015, com 20 anos, tinha acabado de sofrer a minha segunda e última derrota até ao momento, falei com a minha namorada - com quem está junto há seis anos - e partimos para Dublin.

SD - Ela lidou bem com a mudança?

PC - Sim, até foi mais prática do que eu… normalmente costuma ser o contrário… Perguntou-me qual era o melhor lugar para treinar MMA e disse-lhe que era o SBG (Straight Blast Gym), em Dublin, não tanto pelo Conor [McGregor], mas sim pelo John [Kavanagh], que para mim é o ‘mastermind’ deste desporto. O problema principal era que não só não conhecíamos ninguém como nunca lá tínhamos estado. Estive um ano afastado dos combates, trabalhei numa fábrica [em Guimarães] para ganhar dinheiro.

SD - Como foi trabalhar nessa fábrica?

PC - Horrível, os piores meses da minha vida. O trabalho era pesado, fumo das máquinas, os tecidos tinham ‘ácidos’... No verão, no interior da fábrica, chegava aos 50 graus de temperatura… mas agarrava-me à ideia de que era temporário e de que estava a dar um passo atrás para dar quatro para à frente. Um dia, cheguei tão cansado a casa e desabafei com a minha mãe, disse-lhe que não ia voltar, mas ela deu-me força: “Aguenta que é temporário, para seguires os teus sonhos”.

"A minha maior inspiração é a minha mãe. Sempre será!"

SAPO Desporto desafia Pedro Carvalho a mostrar-se fora do octógono. Veja o vídeo abaixo.

SD - Então, como foi a chegada a Dublin?

PC - Em novembro de 2016, chegamos a Dublin, apenas com uma semana marcada. Apresentei-me à equipa do SBG - aquilo é aberto para quem quiser. Qualquer atleta que queira tentar a sua sorte pode ir, desde que pague a mensalidade, que ao início é um valor elevado. Depois, o resto é trabalho e tentar convencer. Porém, mais nada aconteceu: não arranjamos casa e a minha namorada também não arranjou trabalho. Quando estávamos no voo de regresso ela veio com a ideia de voltarmos [a Dublin], com apenas o voo de ida.

Quando chegamos lá [Dublin] foi um pouco assustador, não sabíamos para o que íamos. Alugámos uma casa no Airbnb por um semana, mas a minha namorada conseguiu arranjar um emprego e mudamos para um bom apartamento. Tivemos sorte. Em Dublin, consegues viver perfeitamente com o ordenado mínimo, algo que em Portugal é impossível. Foi complicado, ela não se adaptou muito bem, eu não arranjava trabalho e dez meses depois de lá estarmos ela engravidou. Tinha acabado de fazer a minha primeira luta, que tinha vencido.

SD - Já fazias parte da SBG?

PC - Sim, pagava a mensalidade, treinava lá enquanto elemento da equipa e o meu treinador orientava os combates. Eu já era lutador profissional por isso para mim foi mais fácil.

SD - Voltando ao tema da gravidez...

PC - Fiquei perdido. Não tinha contrato com nenhuma organização e tinha acabado de vencer um combate perante 150 pessoas. Estava a limpar casas de banho num hospital e agora um filho… Não sabia o que fazer. O meu primeiro pensamento foi: “Vou ter de desistir disto tudo, voltar para Portugal, e arranjar um trabalho qualquer para sustentar o meu filho”… Fiquei duas semanas completamente perdido. Achava apenas que não era o melhor momento. Então a Carla [namorada] voltou, ficou a morar com os pais e eu continuaria em Dublin.

Desde que o meu filho nasceu a distância foi ficando mais penosa. Eu venho muitas vezes a Portugal para estar com a minha família, mas não é suficiente. Das últimas vezes, ninguém reparou, mas quando virei costas desatei a chorar. Isso é o que me torna mais forte. Sou um homem diferente desde que o meu filho nasceu. Quando defronto um adversário penso:

"Este gajo está a tentar tirar comida da mesa do meu filho!"

SD - Alguma vez te iludiste por treinar onde treinavas?

PC - Eu estou a treinar para ser melhor e sei que estou entre os melhores. Sei que o que aprendo é melhor do que aquilo que os outros podem aprender. Isso dá muita confiança, mas nunca fui de me iludir.

SD - Ainda tens um segundo trabalho ou neste momento estás dedicado apenas ao MMA?

PC - Não, desde que fiz a minha primeira luta pelo Bellator não tive de procurar outro trabalho. Em maio de 2018, tinha de ganhar aquele combate, porque senão seria o ponto final da minha carreira. Só tinha essa oportunidade. A duas semanas da luta despedi-me porque não queria ter o pensamento de que tinha uma segunda oportunidade caso perdesse a luta. Ou ganhas ou ganhas. Na semana da luta nem dinheiro tinha. Tive de pedir dinheiro emprestado ao meu colega de casa e disse que pagaria quando ganhasse. Essa luta foi-me ‘oferecida’, mas para ser o ‘bobo da corte’ do Daniel Crawford, que era visto como uma promessa europeia. E ganhei.

SD - Podes partilhar os valores que estão envolvidos nestes combates?

PC - A minha primeira luta, o valor mais baixo, com prémio e cachê, foram 14 mil euros. Atualmente o meu objetivo é conseguir patrocínios, para não estar só a contar com os valores dos combates, que não são assim tão regulares.

SD - Como te preparas para os combates?

PC - Há atletas que gostam de consumir todos os videos do adversário. Eu vejo o mínimo, as últimas três lutas, para observar os padrões. Tentar perceber os movimentos, seja em pé ou no chão.

SD - Já te mostraste zangado com a imprensa portuguesa. Ainda estás?

PC - Tenho de ter paciência. Há pouco cobertura da modalidade em Portugal. É algo que se tem de construir. Não é só por mim, é pelo MMA. Os preconceitos existem porque ninguém fala deles. Se se falar mais, o desporto vai 'normalizar-se' aos olhos dos portugueses. Quando isso acontecer vai existir mais adesão.

SD - És o melhor lutador português de MMA?

PC - Eu acredito piamente que sou o melhor do mundo, mas não gosto de me fazer sobressair perante os meus compatriotas. É tão difícil para um português sobressair e agora tentar de alguma ofuscar os outros parece-me injusto. Estamos todos a remar na mesma maré.

SD - O que tinha de acontecer para deixares o MMA?

PC - Alguma infelicidade física, só. É a minha vida, é o que amo.

SD - O que mais queres para o teu filho?

PC - Quero dar-lhe tudo o conseguir dar, mas não o quero estragar. Se lhe estou a oferecer isto é porque tive de lutar muito. Caso ele queira fazer o mesmo, tem de trabalhar da mesma forma, muito.

SD - E se quiser ser lutador de MMA?

PC - O que ele quiser. Eu pessoalmente vou pedir para que não seja. Por uma razão muito simples, porque existem mazelas. Estou a sacrificar-me ao máximo pela minha família, amo o meu desporto, mas para que ninguém tenha de passar pela mesma dor.

Pedro Carvalho em entrevista ao SAPO Desporto
créditos: Sportinforma/SAPO Desporto

Caso vença o combate, o vimaranense vai defrontar, nas meias-finais, o vencedor da luta entre o norte-americano Emmanuel Sánchez e o alemão Daniel Weichel, também agendada para 13 de março, no mesmo local, e já assumiu que, além de conquistar o título, deseja também vencer o torneio.

Pedro Carvalho soma 11 triunfos em 14 combates numa carreira iniciada em setembro de 2012, numa luta com o brasileiro Edi Vicente, em Viseu, que ganhou por ‘submissão'.

Se é lutador de MMA ou conhece alguém que gostaria de fazer parte desta série de entrevistas, envie-nos um email para desporto_hp@co.sapo.pt.

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