Ser jogadora de basquetebol nunca esteve nos planos de vida de Deolinda Gimo. A actual basquetebolista de renome passou parte da sua infância a fugir aos treinadores da modalidade, que a seguiam afincadamente, na tentativa de a convencer a tornar-se uma jogadora profissional. A sua altura - 1,89m - não a deixavam passar despercebida. Até que um dia cedeu.

Iniciou a sua carreira profissional no Ferroviário de Maputo: “ Quando lá cheguei, vi que estavam lá mais meninas da minha idade e fiquei mais entusiasmada. A partir daí nunca mais parei de jogar”, contou Deolinda. Já lá vão 15 anos.

De entre as várias colegas, Deolinda destacou-se desde cedo no basquetebol, e chegou a uma altura em que Moçambique já não tinha meios para suster o seu profissionalismo: “tens tudo para seres uma jogadora brilhante, aqui já não dá mais, tens que ir para o estrangeiro”, aconselhou-a o treinador naquela altura. E Deolinda foi.

Portugal acolheu-a e abriu-lhe as portas para um alto nível de profissionalismo. Seguiu-se Angola, onde Gimo jogou e encantou. Arrecadou o prémio de melhor marcadora e saltadora, na época de 2012/2013: “Foi um troféu que me marcou muito, principalmente porque são raras as vezes que uma jogadora estrangeira ganha um prémio, normalmente calha sempre ás nativas”, contou Deolinda ao SAPO.

Outros prémios se seguiram e marcaram a sua carreira: “Há 2 anos atrás, em Marrocos, fui escolhida como a 5ª melhor jogadora no Campeonato Africano de Clubes. Foi marcante porque eu não estava em forma, estava a recuperar de uma lesão. Na altura jogava pelo 1º de Agosto”, relembrou a desportista.

Mas foi no Gabão que Gimo teve uma experiência inesquecível. Deste país trouxe o troféu que a distinguiu como a melhor jogadora de África, mas não foi só este o motivo deste campeonato de lhe ficar na memória para sempre. Nesse dia a chuva era intensa e o pavilhão ficou, por várias vezes,alagado. “Não havia ninguém para limpar. Tivemos que ser nós, as jogadoras, que parávamos o jogo e começávamos a tirar água do pavilhão. Depois recomeçávamos o jogo. Entretanto, a energia estava a ir constantemente abaixo, e tínhamos que interromper o jogo e esperar que voltasse. Com isto tudo, aquele jogo demorou, pelo menos, umas cinco horas!”, contou Deolinda.

Hoje em dia o basquetebol é, para ela, um vício. Já não se sente bem sem jogar: “Mesmo doente, sei que posso dar algo à equipa. Por isso, já aconteceu eu estar doente, ir só assistir ao treino, mas depois não resistir e pôr-me a jogar”, riu.

Mas para aqui chegar, Deolinda teve que fazer sacrifícios e abdicar daquilo que é das coisas mais preciosas para qualquer mulher: a condição de mãe. Tinha 17 anos quando teve a sua primeira e única filha. Agora, com 27 anos, a desportista contou, com uma expressão de tristeza no rosto, que “sou mãe entre aspas. Na realidade tenho sido mais uma irmã do que uma mãe. A minha filha chama-me mãe, mas quem a criou foram os avós. Eu estava fora, nos jogos. Eu sei que aquele carinho de mãe eu ainda não consegui dar-lhe, talvez agora é que esteja a chegar lá”.

A viver actualmente na sua própria casa, com o namorado e a filha, Gimo está a tentar recuperar o tempo perdido com a sua menina. A idade da filha já lhe permite compreender os sacrifícios que a mãe Deolinda fez pela vida: “Ela agora já vai compreendendo. Por exemplo, ela ás vezes queixa-se que não tem dinheiro para o lanche e que a lancheira está vazia, ao que eu respondo que ainda não chegou o dinheiro do basquete, mas quando chegar, ela há-de ter o seu lanche. E ela já percebe de onde vem o dinheiro para comer”, contou.

Aliás, o basquetebol também lhe permitiu ajudar, além da filha, a sua família. Conforme contou ao SAPO, “venho de uma família muito simples e humilde, mas éramos muitos. Eu sou a segunda filha mais velha, somos 7 meninas. Vivíamos numa casa tipo 2, era muito complicado para tanta gente. Das minhas irmãs, a única que conseguiu vingar fui eu. Então, com o dinheiro que fui ganhando no desporto, fui ajudando a família e conseguimos construir uma casa maior no Zimpeto”. No entanto, não deixou de sublinhar que este dinheiro não vem do desporto em Moçambique, “vem dos jogos que tive no estrangeiro, esses sim deram-me dinheiro”, afirmou.

Humildade e simplicidade correm-lhe no sangue e são ascaracterísticas que melhor a definem. Aliás, a basquetebolista considera mesmo que estes são os segredos do seu sucesso, aliados ao respeito pelos outros e, claro está, à sua altura.

Actualmente a jogar no Costa do Sol, a atleta olha comalguma decepção para o desporto, e mais especificamente, para o basquete emMoçambique: “fico muito triste porque o nosso país não valoriza a modalidade. Temos ganho muitos bons prémios no estrangeiro, temos boas equipes, algumas já estiveram nos mundiais , mas não temos patrocinadores nem pavilhões com condições. Sinto que estamos a voltar ao zero. Hoje em dia estamos aqui poramor à camisola”, desabafou.

Agora que o basquetebol já faz parte dos planos de vida da jogadora, e, como a própria afirma, “quero estar ligada ao basquetebol para sempre”, Deolinda já tem projectos para chegar aos seus objectivos: “Quero abrir uma escola de basquete para ajudar as crianças mais carenciadas. Já comprei um terreno para isso, agora procuro patrocínios, espero tê-los em breve, quem sabe!”, concluiu.

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