A experiência nas expedições às montanhas mais altas do mundo está a ajudar o alpinista João Garcia a aguardar “sereno” pelo final da pandemia de covid-19, apesar de prever um tempo de espera “bem mais longo”.

O primeiro português a atingir o pico do monte Evereste, em 1999, admitiu hoje à agência Lusa que “quem espera 11 dias numa pequena tenda que passe uma tempestade” para continuar até ao cume está mais habituado ao isolamento e sublinhou que o mais importante neste período é estar preparado para as oportunidades que irão surgir no final da ‘crise’.

“Faz parte das qualidades de alpinista, que se cultivam e treinam ao longo de muitos anos. Sei que há uma série de aspetos que não controlamos e temos de estar preparados para quando surgir a oportunidade não a desperdiçarmos”, explicou o montanhista.

O décimo de 19 alpinistas mundiais que escalaram as 14 montanhas com mais de 8.000 metros de altitude, sem recurso a oxigénio artificial, dedica-se agora a guiar grupos em visitas a montanhas e a dar palestras motivacionais, duas áreas que sofreram uma paralisação quase completa após o início dos apelos ao isolamento social.

No que diz respeito ao setor do turismo, onde está envolvido como guia profissional, assume que a crise provocada pela pandemia de covid-19 será “terrível”. Já quanto às palestras, acredita que as empresas vão precisar "novamente e cada vez mais de exemplos de superação” como o seu.

“Cada dia que passa é um ‘prego’ sobre este estigma que se amplifica e vai ficar na cabeça das pessoas. Voar vai ser o grande estigma e será necessário o quíntuplo do tempo que isto durar para que as pessoas consigam derrubar esta barreira”, estimou João Garcia.

Para ajudar as pessoas a ultrapassar a 'crise', o lisboeta prefere estabelecer analogias com o alpinismo, por ser a área da qual percebe e na qual lhe reconhecem “credibilidade”. E o que lhes diria é que “a montanha não é um obstáculo, é mesmo o caminho”.

“Se agora surgiu esta dificuldade, faz parte. É preciso aprenderem as regras do jogo e sobretudo não desaprender. Quando estivermos a descer, se deixarem de lavar as mãos e voltarem aos grandes contactos, o vírus volta a espalhar-se. É normal cometer erros na primeira vez, não é normal repeti-los”, apelou o Comendador da Ordem Honorífica Portuguesa do Mérito.

E num momento em que “o pico” da curva do gráfico de infetados pela pandemia de covid-19 está bem presente nas preocupações dos portugueses, o alpinista sublinhou que a ‘escalada’ é bem diferente do que se passa nas expedições ao pico das montanhas.

“As montanhas requerem um período de adaptação do organismo. É uma subida muito lenta, com eventuais descidas e subidas até chegar ao cume. Depois, a descida é à ‘bruta’ e esta descida [da curva do gráfico da pandemia] tem de ser exatamente o oposto. Se dermos passos maiores do que a perna, haverá uma recaída”, comparou.

O montanhista, de resto, encontrava-se nos Pirenéus, na zona de Aragão, em Espanha, após guiar um grupo turístico durante uma semana, e tomou a iniciativa de regressar antes do tempo ao aperceber-se da escalada da pandemia.

A viagem foi feita de carro, ao longo de mais de 1.200 quilómetros, uma semana antes do retomar dos controlos fronteiriços entre Portugal e Espanha, uma medida que considera que “devia ter acontecido mais cedo”.

“De forma autodidática, preocupei-me em voltar para casa sem me cruzar com ninguém e abastecendo de combustível nas bombas com pagamento automático. Passei pela fronteira como se nada se passasse, numa altura em que a situação em Espanha já era grave”, testemunhou.

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