Há um mês, em 23 de outubro, o Flamengo aplicava uma sonora goleada sobre o Grêmio por 5-0 e classificava-se para a final da Taça Libertadores da América após quase quatro décadas do seu único título. De lá para cá, não havia outro assunto que não fosse a aguardada final contra o River Plate na decisão continental, a primeira disputada em jogo único na história da competição. Nos bares, nos escritórios, nas ruas, nas aplicações de mensagens, nas redes sociais, não havia quem não pensasse no dia 23 de novembro de 2019. Dia desses, no metro, dois senhores por volta dos 60 anos conversavam ao meu lado, e um deles resumiu o que esta final de 2019 representava para a imensa torcida rubro-negra. Dizia ele, “minha filha tinha seis meses de idade quando o Flamengo foi campeão em 1981, hoje ela tem 38 anos. É mais que uma vida a espera de outro título desses, não podemos deixar escapar mais uma vez’’.

E quando a bola rolou no estádio Monumental de Lima, aos pés da cordilheira dos Andes, o que se viu foi um organizado River Plate, atual campeão sul-americano, frente a uma nervosa e afoita equipa carioca. E quando o colombiano Rafael Borré marcou aos 14 minutos de jogo, imediatamente pensei naquele senhor que confessava ao amigo a angustia de uma vida. As coisas pareciam não dar certo para o Flamengo, e apenas na segunda parte a equipa de Jesus rematou à baliza pela primeira vez. Jogadores brasileiros extenuados, o River a controlar os ânimos como um virtual campeão, até que aos 88’ Gabriel marcou o golo do empate, e dois minutos depois, o da vitória, do título, da explosão que tomou conta da metade do estádio em Lima e de boa parte do Rio de Janeiro.

Não há quem fique indiferente com o Flamengo pelas ruas cariocas, tomadas por festejos e fogos de artifício. É um misto de carnaval com réveillon o ambiente na cidade, e a festa deve estender-se até o fim de domingo, com a possibilidade do título brasileiro, em caso de novo tropeço do Palmeiras. Jorge Jesus, que quase tombou perante o Emelec, do Equador, nos oitavos, em sua estreia na competição sul-americana, pode orgulhar-se do percurso que fez em pouco mais de cinco meses à frente do clube, já fazendo parte da história mais vitoriosa do Clube de Regatas do Flamengo.

Como há 38 anos, o Flamengo foi campeão da América do Sul num 23 de novembro. O primeiro título, frente aos chilenos do Cobreloa, com dois golos do ‘deus’ rubro-negro Zico. Quase quatro décadas depois, Gabriel, o Gabigol, fez valer a alcunha para dar o segundo título continental ao clube. E como em 1981, o Liverpool era o campeão europeu na disputa pelo título de melhor clube do mundo.

Fico a pensar na festa que aquele pai que ‘conheci’ ao acaso no metro está a fazer neste momento, certamente a recordar à filha como fora a festa de 38 atrás, quando esta ainda era uma bebé. Um brinde ao futebol e à vida!

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