Eram 14h30 pelo horário de Brasília. A música, sempre em volume máximo, diminuiu. As frenéticas buzinas dos impacientes motoristas cessaram. As ambulâncias deixaram de circular pelas espremidas ruas e avenidas da cidade. O Rio de Janeiro parou mais uma vez em 2019. Era o Flamengo em campo contra o mesmo rival de 38 anos atrás, os rapazes de uniforme branco novamente frente aos indiferentes ingleses, que até algumas semanas antes não sabiam com qual equipa iriam viajar ao Qatar, tendo em vista o mais que apertado calendário do futebol inglês no fim de cada ano.

Um Flamengo que precisou lidar com a morte trágica no início do ano, com dez jovens a serem vítimas de um incêndio nas imediações do clube. Que demitiu seu técnico linha dura por não saber lidar com as várias opções de qualidade no plantel, e que trouxe de Portugal o homem que viria a sacudir os alicerces do futebol brasileiro. Era o Flamengo campeão carioca, brasileiro, sul-americano, aquele que acredita até o fim.

Mas este Liverpool camaleónico, muito bem orientado pelo alemão Klopp, encanta a Europa e o mundo do futebol e não à toa. Uma sólida defesa, com um guarda-redes que quase não salta e agarra todos os remates à sua direção, um central holandês que parece ter nascido com a camisola vermelha de Merseyside, um meio de campo ágil e dinâmico, que faria Cruyff sentir-se orgulhoso, e um ataque que se não é o melhor da atualidade, está no pódio dos melhores. Salah, Mané e o brasileiro nascido nas praias de Maceió e chegou à Europa no frio alemão para firmar-se no Hoffenheim, antes de mudar-se para Anfield em 2015. 

No último jogo do inesquecível ano para o Flamengo, os sentimentos entre os adeptos eram um misto de cautela com euforia. Seria o mesmo vexame que o Santos frente ao Barcelona na final de 2011? Ou a glória que São Paulo em 2005, Internacional em 2006 e Corinthians em 2012, últimos brasileiros campeões mundiais, alcançaram frente aos tubarões europeus? O certo é que o Liverpool começou melhor a final de Doha e pouco a pouco o Flamengo sentiu-se mais a vontade para arriscar. Mas a diferença entre o campeão sul-americano e o da Liga dos Campeões existe, e ficou evidente na parte final do encontro. Com o 0-0 no fim do tempo regulamentar, uma meta já estava cumprida: não haveria um vexame mundial, como alguns chegaram a prever. Mas o Flamengo tombou, e logo pelos pés de um brasileiro, o único, além do guarda-redes Alisson, em campo pelos ingleses. Roberto Firmino, o terceiro elemento do fulminante trio ofensivo de Klopp, encheu os ingleses de orgulho e ao mesmo tempo apertou os corações rubro-negros, que ainda bateram forte no remate para fora do jovem Lincoln no derradeiro minuto, mas o mundo render-se-ia novamente ao futebol europeu, com o triunfo inglês por 1-0.

Os carros voltaram a fazer barulho, as pessoas a conversar num volume sempre acima da média, a música novamente a ser ouvida por todos os cantos. Após duas horas e meia, o Rio de Janeiro voltou à normalidade, e o carnaval vai ter mesmo de esperar até 2020, pois o Flamengo não conquistou o tão desejado Mundial de Clubes. Esta glória ainda pertence à Zico e aos demais da turma de ‘81. 

 

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